Observar, Temer, Proteger

Observar, Temer, Proteger

Lembro com clareza perturbadora de como, depois que o efeito da bebida passou naquela noite, minha mente entrou num modo de repetição obsessiva. A cena toda, que, em qualquer outro contexto, poderia ser apenas uma lembrança cômica, algo que eu arquivaria mentalmente para rir sozinha no banho, perdeu totalmente a graça por causa daquele homem.

Não era o álcool. Eu sabia disso. Não foi uma ilusão etílica ou uma alucinação momentânea. Havia, sim, alguém parado em frente à sua casa, e minha intuição gritava isso com todas as forças.

Quem era ele? E, mais importante, por que estava lá naquele horário, completamente deslocado da lógica cotidiana?

Como não tinha respostas, decidi começar pelo básico: observar. Me transformei, por algumas noites, em algo próximo de uma sombra discreta. Passei a circular pelas redondezas da sua casa, sempre mantendo uma distância segura, assumindo posturas casuais, uma caminhada despretensiosa aqui, uma conversa jogada fora com algum desconhecido ali, qualquer coisa para despistar.

Nada. Nem sinal do sujeito.

É importante mencionar que iniciei essa pequena "operação" exatamente às oito da noite. E sim, fiquei por ali durante horas. Quatro, pra ser precisa. Vigília paciente, olhos atentos, corpo fingindo desinteresse, enquanto a mente fervia. E, ainda assim, o silêncio predominou.

Mas não, eu não desisti fácil. A ausência dele naquela faixa de horário não era suficiente pra me convencer a ir pra casa de mãos vazias.

O que me guiava era uma lembrança específica: naquela noite estranha, eu o vi às duas da madrugada. Quando o relógio marcou 00h40, decidi continuar ali, resistindo ao frio e ao cansaço. Eu precisava saber se havia um padrão, uma lógica preferencial por parte dele. Às duas da manhã, a rua está morta, o bairro mergulhado num silêncio absoluto. Perfeito para quem quer se mover sem ser notado.

E eu estava certa.

Quando o relógio cravou duas da manhã, lá estava ele. O mesmo homem. Aparecendo como se obedecesse a algum ritual sombrio, caminhando com pressa desajeitada em direção à sua casa. Mas não era só urgência que ele carregava, havia raiva nos passos, uma fúria silenciosa estampada no ritmo com que se aproximava.

Imediatamente, saquei minha câmera. Fotografei cada movimento. Cada avanço. A cada passo dado, mais uma imagem capturada. Ele virou, por falta de palavra melhor, a estrela da noite.

O foco absoluto da minha atenção, da minha lente e da minha preocupação.

Mas sejamos honestas: não acho que ele vá gostar de ser protagonista dessa história.

Ele estava lá de novo. Parado como uma estátua que respira. Diante da sua casa, completamente imóvel, exceto pelos braços que tremiam discretamente e os punhos cerrados com tamanha força que quase pareciam implorar por permissão para agir. Havia algo de brutalmente primitivo naquela postura contida, como se ele estivesse travando uma batalha interna para não ceder a algum impulso sombrio e obcecado. Um impulso que, sinceramente, eu preferia não descobrir qual era.

Registrei mais uma foto. A última. Depois disso, optei por não depender mais da lente, apenas dos meus próprios olhos. Observei cada segundo como se o tempo estivesse se arrastando, arranhando as bordas da minha sanidade. Devem ter se passado uns trinta, talvez quarenta minutos. Quase uma eternidade congelada no relógio. A tensão da cena me deixava suando frio, literalmente. Porque eu sabia — com aquela certeza instintiva que só uma mãe conhece — que aquele homem tinha intenções com você. E não eram boas.

Eu sentia, eu sempre sinto, eu sempre sei.

Por um breve momento, desviei o olhar para revisar as fotos no visor da câmera. Tentei decifrá-lo. Ele usava uma calça preta simples e um casaco escuro com capuz, vestimenta típica de quem quer se apagar no cenário. Em algumas das imagens, notei que também usava uma máscara preta, escondendo boa parte do rosto. E luvas. Sempre as luvas. Era como se ele tivesse planejado até os detalhes mínimos para não deixar rastros — nem digitais, nem expressivos.

O modo como seus punhos estavam cerrados, com tanta violência contida…

Aquilo não era só tensão, era desejo de dano.

Meus braços começaram a tremer. Senti o passado e o presente se fundindo ali, nas fotografias que eu segurava. Olhei fixamente para elas, com um olhar agora mais rígido, tomado por um medo que não era só medo — era um pressentimento quase doentio. Mas eu sabia que, se deixasse esse medo tomar conta, ele me paralisaria. E eu não podia me dar esse luxo. Não ali. Não com você tão próxima do alvo.

Fechei a câmera e levantei os olhos. Precisava me reconectar à realidade, tirar os pés daquele redemoinho de lembranças. Olhei para sua casa de novo.

E ele não estava mais lá.

Meu coração disparou. Uma pulsação brutal, como um tambor de guerra dentro do meu peito. Olhei ao redor, em pânico, tentando encontrar algum vestígio da presença dele. Mas nada. Nenhum som. Nenhum vulto. Nada. O silêncio que havia voltado à rua parecia zombar da minha percepção.

Era impossível ele ter simplesmente desaparecido assim. Eu estava atenta, concentrada. Ele não teria conseguido fugir correndo sem ser visto.

Será que.. será que ele tinha entrado?

Minha reação foi instintiva. Virei imediatamente em direção à sua casa e disparei, correndo, tropeçando quase nos próprios pés. O mundo pareceu girar ao meu redor, mas eu segui firme até a calçada.

Cheguei na frente da sua casa, ofegante. Me aproximei da janela, com os dedos tremendo.

E então, comecei a olhar para dentro.


Voltar | Retornar